Interessante como algumas recordações saltam a mente sem que se espere. Estava trancado no meu quarto copiando um trabalho da faculdade, copiava rápido, tão rápido que a caneta parecia andar sozinha deslizando no papel. As letras se engarranchavam umas nas outras, se sobrepondo. No momento em que copiava, eu mesmo me admirava com a velocidade. Tentando otimizar o tempo, parecia que tracejava uma linha reta no papel ao invés de escrever palavras, embora quem as lesse, pensasse ser realmente uma linha, não era. Apenas que somente eu as entendia. Nesse momento, me veio uma lembrança nostálgica. Estava eu no primário, sentado na carteira, sendo o último na sala de aula, somente eu e a professora Cristiane. Como não podíamos sair da classe antes de terminar a atividade, e eu era tão disperso que conseguia quase sempre ficar por ultimo. (Eu disse era, mas na verdade sou). Aí vem o motivo de eu ter me lembrado desse momento. Me lembro como desenhava as letras no caderno, ainda sem prática de escrita, circulava os "ós" e puxava a perninha dos "ás". Usávamos lápis, era horrível. Havia aquela vontade de chegar no ginásio para só então poder usar caneta. Mas não era por acaso que não podíamos usa-las, se assim fosse, os cadernos haveriam mais rasuras que palavras. Mesmo com meu lápis de ponta grossa, borrava o caderno com aquelas borrachas mal passadas, que criava manchas cinzentas na folha. Se as pontas fossem finas, não ficariam nos lápis. Era tanta força que coitado deles, eram estrangulados. Graças a minha pró Cristiane, aprendi chamar o circunflexo de chapeuzinho e o agudo de tracinho inclinado. E mais que tudo, aprendi colocar cedilha no "voçê". Ainda hoje não consegui me livrar desse vício. Vez em quando me pego cedilhando a porra do você. Enfim, essa é a cena do filme onde termina o flashback e voltamos aos dias atuais. No meu quarto, calmo e silencioso; trancado, copiando o trabalho para a faculdade.
domingo, 5 de junho de 2016
Nostalgia, tempos de primário. Cedilhas e circunflexos
quarta-feira, 1 de junho de 2016
Oi! Bom dia.
Bom dia. Bom dia quem? Ninguém dormiu comigo, a quem dou bom dia quando acordo? Mas eu dou bom dia, falo pra o dia, falo pra o sol que faz o favor de me acordar. Insistente, entra pela minha janela branca, comprida e estreita, e fica oscilando conforme as nuvens que o encobrem. Apesar da insistência, quase nunca me convence a levantar. Minha mãe sai as oito, meu pai sai quando ouço o barulho da caminhonete. Sobra minha irmã, a ultima, e as vezes a primeira a sair. Na verdade o ultimo sou eu, que as vezes nem saio. Meu quarto parece que resume minha vida, bagunçado, cheio de roupas pelo chão, que também nao me convence a arrumar. Quando convence, quem reclama é o guarda roupas que fica atulhado de bagaceiras. Enfim, bom dia.
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